24.7.17

O cachecol vermelho

Li há pouco que a grande pirâmide do Egito está localizada exatamente no centro da Terra. Parece também que há (ou sempre houve?) um novo sistema solar parecido com o nosso e com grande possibilidade de possuir três planetas com vida próxima à humana. Estou naquela parte do livro do Gabito em que Rebeca talvez esqueça os ossos dos seus pais e lembre-se mais vezes do que gostaria de seu professor de música. Escutei uma canção hoje que dizia que há momentos inevitáveis em que o coração da gente pede respostas, mas que é nessa hora que a gente diz que não entende a vida e chora. Depois soube que o autor da música pode ter batido na sua mulher grávida e pensei que a vida é isso: um espanto depois de outro espanto. Um moço me parou esses dias na rua perguntando se eu era eu mesma e eu fiquei meio desconcertada porque não sei responder ainda essa pergunta sobre quem a gente é de verdade. Eu disse que sim, depois disse que talvez sim. E talvez seja mesmo.

Penso frequentemente nos mistérios do mundo e nos meus abismos, e o caos sempre me conduz ao cachecol vermelho dela. Fico pensando que o cachecol dela poderia dizer mais sobre o frio do que as previsões do tempo ou que eu poderia esquecer todos os verões de sol por aquele dia em que ela caminhava no centro de São Paulo me ensinando a história da música dentro da Igreja Católica. O cachecol não ficava onde ela o punha, mas ela, enquanto falava, insistia mais com ele que comigo. E sempre foi assim. A sua mão ficava entre o gesto de dizer e o de arrumar o cachecol.

Passávamos por cima de uma ponte, de mãos dadas, enquanto eu era por alguns minutos uma pessoa indecisa sobre a felicidade. Eu não sabia se era possível ela ser realmente ela sem aquele cachecol e aquela paisagem de inverno. O cachecol que insistia em cair e o clima da cidade faziam dela uma espécie de certeza de quem sabe que vai morrer. Ela era isso, uma certeza. Uma certeza que não existiria sem o centro da cidade e aquele cachecol. Belíssima! E articulada o suficiente para colocar cada palavra em seu lugar no discurso, na maestria de quem joga xadrez com as palavras, ela ia e vinha na linha do tempo da música e da vida.

Eu não sabia se dizia que não sabia nada daquilo ou se dizia que sabia e que sempre soubera que aquele dia seria escrito por mim quando não estivéssemos mais juntas. Ah, sim, porque eu tinha menos de 30 anos na época, mas eu já era sabida o suficiente para suspeitar que não existiria felicidade, nem momentos felizes ao lado dela. O que existiriam seriam apenas momentos bonitos. Cachecol bonito. Paisagem bonita. E ela: bonita.

Ando pensando, então, que seja importante frisar essa diferença para a sobrevivência da nossa humanidade: a beleza da vida nem sempre está em viver uma vida feliz. O trágico pode ser belíssimo e a felicidade pode nunca ter vestido o cachecol vermelho dela.


3.7.17

A casa amarela

Tentei buscar fotos e não encontrei muitas. Levaram meu celular e com ele boa parte das lembranças da casa amarela: a primeira casa na qual morei com meu filho. Antiga. Pequena. De aluguel brando. Com muita reforma por fazer. Varal sempre remendado. Um dos muros ainda na argamassa. Dois vizinhos de corredor. E o que mais me importava: a cor e o sol.
A casa era toda pintada de amarelo e os raios de sol entravam pelas janelas amplas e altas, daquelas que a gente abre para fora e fica pensando o que sente por dentro a pessoa que se dedica a fabricar janelas. Gente que bota na mão a responsabilidade de lembrar o outro de que a vida acontece lá fora.
A minha era a casa do meio. A de número dois. E moravam nela, por querencia dos Orixás, duas pessoas: eu e meu filho. Lembro dele comendo cereal com leite no café da manhã, sorrindo e perguntando se aquela era mesmo nossa casa. Era. E não era. Agora, que se passou o tempo, vejo que ela é ainda em mim muito mais do que fora antes. 
Nas manhãs de sol, aos finais de semana, era uma beleza lavar roupa no tanque antes de botar a máquina para trabalhar. Tinha gente que dizia pra eu colocar tudo lá e não me preocupar, que hoje em dia as máquinas de lavar são boas mesmo. Mas como explicar pra toda gente do mundo o que eu sentia naquele tanque de pedra? Não cabe no coração do mundo uma porta de madeira, um varal remendado, uma espera, menos ainda um tanque de pedra. As pessoas geralmente estão sempre com pressa e o tanque coloca a gente pra pensar. E pensar demora.
Era bonito lavar roupa na casa amarela. Era sempre calor e enquanto eu esfregava todas as artes com tinta do meu filho, ia conversando com a vida. Pablo brincava no quintal e às vezes me chamava para ver algum inseto que ele tinha descoberto. Eu ia descalça, enxugando as mãos num shorts jeans desbotado, correndo para ver se ele não tinha botado a mão num bicho perigoso. Voltava pro tanque dizendo "Graças a Deus!". Graças a Deus eu dizia também enquanto esfregava meia por meia do meu filho, porque eu sabia que deixar pra máquina não bastava. Máquina de lavar não benze criança. E foi o tanque que me ensinou que quando a gente vira mãe tem de lavar as meias e os calçados dos filhos à mão para ir abençoando o caminho da criança. É pelo pé, além da boca, que fazemos nossas escolhas. E enquanto via a meia embranquecendo, eu ia agradecendo o que tinha conquistado sem merecimento. A vida tinha sido boa comigo, eu pensava. Moro numa casa amarela e o chão da minha rua é feito de pedra, feito esse tanque aqui. Graças a Deus.
Estendia as roupas e olhava para o céu. Uma das cenas mais bonitas que guardo na lembrança. As roupas sob o sol e o céu. 
Atrás da minha casa tinha uma igreja. O sino tocava às nove, às quinze e às dezoito horas. Eu achava graça. Menos vezes consultava o relógio para viver a preocupação moderna, a de dar conta do tempo. Achava bonito morar atrás de uma igreja e escondida entre duas casas. Achava que morava no fundo de um corredor no qual ninguém supunha o quanto eu era feliz.
Às vezes imaginava que as mágoas do passado bateriam palma para eu abrir o portão. Não tínhamos campanhia. Visita chegava batendo palma ou gritando Fernanda, lá na rua. Se eu não ouvisse, alguém vinha me dizer. Então, às vezes eu pensava que o passado poderia bater palmas, entrar e me pedir desculpas. Mas isso nunca aconteceu. Acabava o sábado, o domingo, e o passado não estava, era uma ausência que só tinha me feito caminhar até o encontro daquela casa. Então, era só eu, meu filho e a casa amarela. 
Às vezes minha mãe aparecia, preocupada. Vinha com a desculpa de que tinha ido à feira e comprado umas frutas para mim. Mas era saudade, eu sempre soubera. Se ela suspeitasse hoje, no entanto, o quanto aquela casa me deu dignidade, ah, mãe, nós pintaríamos a minha nova casa toda de amarelo em homenagem àquela que foi a primeira morada da minha liberdade.

Meu filho e eu sentados em frente à porta da casa amarela