11.12.17

Maria

Adiei ir ao salão mexer no meu cabelo para não correr o risco de ouvir o nome dela. A Maria, de tanto cortar as minhas pontas, sabe de trás pra frente como foi o dia em que, eu e a minha ex, nos vimos pela primeira vez. Seria fatal: mexer no meu cabelo significava correr o risco de escutar a Maria perguntar por ela. "E a namorada? Como está?". Botei na minha cabeça, então, que precisaria ir ao salão apenas quando eu fosse capaz de dizer "Terminamos, mas eu estou bem, Maria. Olha, eu juro que estou bem". 
A Maria corta meu cabelo há muitos anos e talvez me conheça mais do que minha mãe. Ela sempre sabe como me sinto assim que me vê pisar no salão: "Hoje você está mais leve que da outra vez", "Está gostando de morar sozinha", "Fez bem pra você terminar com aquela lá", "Essa tatuagem precisa terminar, menina". E assim a conversa vai até o infinito. 
Acontece, no entanto, que dessa vez seria diferente. Eu nunca tinha me imaginado entrando no salão e contando pra Maria que ela tinha ido embora de vez. Já estava imaginando as pessoas em volta me olhando chorar, alguém me trazendo água, outra pessoa me oferecendo lenços e a Maria pedindo pra eu sentar um pouco e respirar fundo. Seria desesperador! Então, adiei o corte de cabelo e fiquei de luto uns bons meses até que eu fosse capaz de responder à pergunta da Maria por ela e suportar firme a expressão de tristeza que estaria estampada no rosto da Maria quando eu contasse a verdade.
Meu espelho, no entanto, teve pressa e anseio de amor próprio. A meditação e a yoga andaram me levando para um lugar muito longe da praia em que eu havia caminhado: eu mesma me esperava no fim. E já que o autoconhecimento me dizia que eu ainda não era capaz de falar sobre o término, era preciso enfrentar a verdade com uma mentira. Isso mesmo, eu mentiria. Eu diria à Maria que a dita cuja estava ótima, que estávamos bem e que... estávamos juntas! Esse seria meu jeito de não ver a minha dor no olhar da Maria, que me abraçaria apertado e pentearia meu cabelo devagar, num movimento fraterno e carinhoso como ela fez em momentos parecidos, caso soubesse a verdade. Era preciso mentir. E a única estratégia que eu precisava administrar bem além da mentira eram as respostas sobre as novidades. Não teríamos novidades e eu devia focar em perguntar a Maria sobre a vida dela e não deixar, em hipótese alguma, que ela falasse de mim para além do comprimento do meu cabelo. E foi isso que fiz num determinado momento da conversa:
- Mas Maria, chega de falar de mim, sempre que venho aqui falo e falo e falo de mim. Me diga como você está?
- Ah, eu estou como sempre estive, Fê. Cuidando do meu netinho.
- Você tem um netinho?
- Claro, olha ele aqui.
Dentro de todos esses anos que a conheço, a Maria casou, a Maria separou, a Maria teve dois filhos, a Maria teve um neto, a Maria perdeu os pais, a Maria brigou com a cabeleireira ao lado, a Maria se mudou três vezes, a Maria internou o filho, a Maria teve câncer no ovário, a Maria abrigou uma cliente e uma prostituta, a Maria suportou dores infindavelmente maiores que as minhas. E eu me comportei em todas as suas lutas como uma verdadeira menina mimada de classe média: surda para todos os desesperos que não fossem os meus. 
Ao fim de umas duas horas, meu cabelo estava lindo e eu criei coragem para dizer:
- Terminei com ela. Faz três meses.
Ela me olhou como eu supunha que me olharia: como quem sente a minha dor apesar do meu egoísmo de classe.

3.12.17

Coentro

O primeiro dia em que ela veio para São Paulo, antes de entrar em casa, ela quis passar no mercado para comprar temperos. Mineira. Cozinheira. Boa de olhar. Batia o olho na salsa e sabia qual era o tom de verde ideal pra vida. E eu, que nada sabia desse universo mineiro que é muito afeiçoado em fazer comida pra gente, ficava só no registro do olhar, observando o manejo que ela tinha pra cortar o alho bem picadinho e fazer do meu coração a mesma coisa ao final. Um gesto de amor, talvez; ou de vaidade, provável. Ela sabia que eu era nova o suficiente para me encantar por alguém que sabia cozinhar e que faria isso para mim, ou para ela mesma, num gesto de autoamor que levaria ao meu desespero quando a comida acabasse e o amor dela por mim também.

Nesse primeiro dia ela me ensinou algo importante que a maioria das pessoas talvez saibam, mas que eu não sabia até então: identificar a diferença da salsa e do coentro pelo aroma. Lembro bem quando ela repetiu várias vezes a mesma frase: "Você nunca, nunca, nunca, em hipótese alguma, pode confundir salsa com coentro!". Ok, eu acho que entendi, respondi. Ela falava comigo como quem educa uma criança sobre a importância do uso dos tempos, temperos, verbais nas frases. E, desde então, eu fui proibida de comprar coentro. Não por ela, mas por mim mesma, já que quem nos limita na vida nunca é outro, mas nós, os românticos. Era salsa o tempero que ela usava. Era ela o amor da minha vida. Então era salsa que eu comprava no mercado. Nada de coentro, Fernanda. É salsa.

Acontece, minha gente, que um dia, depois de um ano de macarrão ao alho, óleo e salsa, o amor da minha vida resolveu não atender o telefone, não responder whatsapp, desaparecer. 
E eu, por birra, fui ao mercado comprar coentro.