17.5.18

O tempo

Ao mexer na minha estante de livros, nesta tarde de maio, passei um pano úmido sobre o rosto de João Cabral de Melo Neto e me detive por alguns segundos. Eu já tinha quase me esquecido do quanto gostava deste livro e, principalmente, do olhar que João Cabral estampa na capa. Abri-o devagar enquanto desci do banco que havia subido para alcançar a última prateleira da estante e, ao me acomodar no sofá, vi Elena. 
Tínhamos acabado de adentrar a sala de seu apartamento na República, quando ela me pediu que sentasse um pouco, que ela iria trazer o presente que tinha comprado para mim naquele Natal. Veio com uma sacola com a estampa de uma livraria e disse-me que supunha que eu gostasse. Era "O artista inconfessável", uma coletânea com os melhores poemas de João Cabral de Melo Neto. Abri um sorriso e abracei o livro como uma criança que agasalha seu bichinho de pelúcia. Ela sorriu. Eu disse que não precisava. E ela, que sempre fora uma ariana autêntica, confessou-me que só havia comprado dois presentes: um para mim e outro para sua melhor amiga, portanto, era bom que eu gostasse e que percebesse o lugar que era destinado à nossa relação em sua vida. Meu sorriso então, naquele instante breve de felicidade, quando o universo pareceu estar reduzido ao formato da boca dela ao pronunciar a palavra vida, ocupou toda a sala, o apartamento, o centro da cidade, revelando o contraditório que me habita: apesar dos meus ares socialistas, era bom fazer parte, pelo menos no amor, do seleto grupo de quem ela amaria.
Hoje, ela ocupou novamente a sala. Agora, a do meu apartamento. E parece que pude ouvi-la dizer, como várias vezes ela já houvera dito: "Eu não falei que passaria?".

Ah, o tempo...


8.2.18

Bagagem

Você ficará com as águas da cachoeira e as paisagens do livro que nunca leu. E as palavras, todas, que estão na primeira página e que eu escrevi na estrada para lhe encontrar. Todas elas compõem o que não fomos.

Na caixa estão as minhas dores separadas por lágrimas de ausências, excessos de ciúme, falta de dinheiro para passagens, silêncios.

Talvez, agora, eu não queira voltar mais para a prisão da sua espera. Eu quero amar a verdade. Com todas as suas gotas de dores e faíscas de vida.

Não precisa devolver o amor próprio que lhe emprestei. Ainda resta um pouco dele aqui.