2.3.14

Como dizer "eu te amo" a uma feminista

Não diga!
Ame as suas estrias,
marcas da vida, tipo sanguíneo.

Não diga!
Não se apoie em tipologias,
ela não é como todas as outras
e é como toda mulher.

Não diga!
Não repita o que ouve no rádio,
não cante aquela canção tão frágil
ela é mais forte do que imagina
[vai te engolir esses dias
vai te botar pra limpar chão!]

Não diga!
Prepare o jantar em família,
estique o lençol do colchão
bote o café na mesa,
deixe-a trabalhar e ser linda.

Não diga!
Não a maltrate com comparações
ela não quer ser a sua vaidade
ela não quer desfilar no Carnaval
ela não quer ser vitrine nem oferta em liquidação

Não diga!
Ela não é sua por tempo nenhum,
ela é dela mesma e da periferia,
ela sabe que dói ser mulher de malandro
ela sabe como partir: onde, com quem e quando.

Não diga!
Domine seu egocentrismo animalesco,
deixe que ela seja o tigre que quiser,
que ela vista o comprimento de saia do que sentir.
[Faça amor sem exigências; e se exigir: por favor, parta!]

Não diga!
Assuma que tem medo
de mulher que não tem medo de fazer topless,
Não a chame de vadia
caso ela não corresponda ou corresponda muito rápido a seu amor.
[Ser taxada de fácil é um saco, mas ser difícil pra te agradar eu não quero não!]

Não diga!
Envaideça a sua cintura
que não se contorce para caber no vestido,
mas na sua vida.

Não diga!
Enobreça a sua doença
adquirida com o peso das delegacias de outras tantas mulheres que,
assim como ela, tiveram a ideia radical de que mulher é gente.

Não diga!
Elogie a sua coragem
de ser mulher num mundo em que se mata mulher todo dia.

Não diga!
Leia as entrelinhas
do que ela te dá no anoitecer,
nos instantes em que ela é, apenas isso, mulher.

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