9.2.14

A primeira página é sempre silêncio

Nas tardes de verão, ela vem e se senta na calçada ao lado dele.
Ela enrola os cabelos como quem estende a vida para fingir que ele não mexe com ela.
Se ela se distrai e olha para o céu, ele aproveita para admirar os olhos dela.
Quando ela se volta para ele, ele esmorece, abraça os joelhos e encaminha seus medos para o final da fila da última formiga que passa. 
Se ela canta, ele resmunga. Se ela prossegue, ele manda que pare de atormentá-lo.
Ela para, mas não arreda o pé.
Ele se cansa de esperar e pergunta por que é que ela não olha para o céu de novo.
Ela olha.
Ele pensa que podia chover no ombro dela.
Ela pensa se ele é chuva de janeiro para cair sempre à tardinha.
Ele não sabe que ela desenha borboletas como ela não suspeita que ele atrasa a hora de jantar para vê-la fechar o portão.
Tem um botão do vestido dela no bolso dele.
Há incontáveis rascunhos em papel colorido com o nome dele espalhados pelas gavetas do quarto dela.
Ela sonha toda noite que gaivotas brilham no escuro quando ele a convida para dançar.
Ele guarda a roupa de gala que fora do pai para o dia que tocar Bee Gees e ela estiver no salão.
Ela se perde nos pontos da trança. Seu cabelo não tem comprimento suficiente para contar a idade dele: o último laço dá nos onze anos; ele tem treze. Quase!
Quando a mãe dela aparece no portão, eles se levantam no mesmo instante.
Ela diz "tchau" e entra. Ele diz "tchau" e fica.
Antes de dormir, ela pede a Deus que encurte a calçada.
Ele pede chuva e coragem.

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