18.2.17

Carta à Imenjá

Quis escrever uma carta à Imenjá num papel bonito, de caderno forrado a tecido, cheirando alecrim. Fui até o mar no mês de julho, quando o inverno chega num barco com a sabedoria de uma cômoda antiga. Botei o pé na areia e caminhei calada, silenciando a morena de boca rouca que se abriga dentro de mim. De uma ponta à outra, a praia me observava e eu beirava seu quintal: eram as flores a espuma das ondas, era erva-doce a brisa, eram estrelas os pontos de sal.

Em alguns instantes o vento falou do tempo que se passara do meu nascimento até ali, depois dali até depois do fim que, segredou-me ele, nunca chegará enquanto houver criança com trança e balança e mão de mãe para cantar. E fui me dando conta então das varandas que não aproveitei, dos panos com que limpei o chão, do criado-mudo esperando um par de brincos esquecidos antes da minha ida às escolas em que lecionei.

Era eu a professora de Língua Portuguesa que falava de palavras e que não sabia ouvir o mar.
Era eu a mãe de um menino de cinco anos alérgico à vida sem graça dos condomínios de classe média de São Paulo.
Era eu a mulher apaixonada pelos outros e esquecida de Florentino Ariza em "O amor nos tempos do cólera".
Era eu a voz rouca que agora emudecia para todos os tons de azul.

Eu precisava-me me lembrar, dizia o mar, na sua língua de imensidão.

Para navegar seu infinito, tinha eu de inundar o peito de mim mesma sem me afogar. Era substancial ter nos olhos a aptidão de ver com a simplicidade das pedras, pois depois das montanhas, apontou Iemanjá, é que está o começo de toda nova história.

Revezando entre olhar as águas e o verde das matas, apanhei uma concha e botei no ouvido para decifrar o futuro. Com a sutileza de uma borboleta que pousasse no meu ombro, o som do mar de longe me dizia Minas. Minas Gerais.

Era a força da Serra da Mantiqueira presente dentro de mim, trazendo um amor singelo e forte feito das suas montanhas impenetráveis.

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