15.6.16

Sobre um fim de tarde que eu não te contei

Na primeira terça-feira de outono deste ano, eu resolvi passar o fim de tarde tomando
chocolate quente numa padaria da Vital Brasil. Optei por me sentar numa mesa na calçada e ficar de frente ao pôr-do-sol e de costas para um passado que eu não pretendia mais recordar. Ia dar 18h no relógio e eu tinha já certeza de que, assim que as luzes da cidade ocupassem o lugar do Sol, eu não responderia a mais nenhuma mensagem que saltasse do meu celular. Era outono, afinal, e as folhas do chão eram tão mais bonitas envelhecidas que eu queria embranquecer também os meus cabelos até que eles me cobrissem com a sabedoria de Florentino Ariza para concretizar o amor na varanda de uma embarcação que segue o caminho de um rio. Eu queria o singelo da terra molhada e o alaranjado daquele arrebol que se vislumbrava no fim da avenida.

Eu estava sozinha como na maioria das vezes gostava de estar. Mais cedo havia desmarcado o chocolate quente com uma companhia que cada vez mais se desenhava como nuvem esparsa no tempo, no tempo da minha estrada. Então, peguei um bloco de anotações da bolsa e passei a rabiscar algumas palavras. Não saia nada de muito bom. Eu não tinha nada para dizer. A escola ainda me causava estranheza e eu  também não queria escrever um texto dizendo o quanto estava odiando uma disciplina da faculdade. O meu relacionamento ia para o ralo de um modo tão cruel que sequer tinha eu vontade de tecer as migalhas que tivessem sobrado.

Então acabou minha xícara e a noite veio com um suspiro. Eu queria escrever. Cruzei as pernas mais uma vez. Não havia mais amor. Era esse o problema. Nem sabia se havia existido antes. E nenhuma teoria bolchevique nem Kollontai me convenceriam a compor uma frase sem que houvesse em mim ou nos outros: amor. Eu precisava de um motivo qualquer: uma criança que entrasse na padaria e não tivesse dinheiro para comprar um bolo, um rapaz que chorasse sozinho na mesa da frente enquanto falava ao telefone ou um casal sorrindo de canto um para o outro tentando disfarçar um encantamento. Mas nada, a vida não acontecia.

Na segunda xícara de chocolate, o branco do papel havia me vencido e eu acabei pegando o celular da bolsa. Não quis ler mensagem alguma, fui direto para a minha galeria de fotos. Achei uma foto sua que eu tinha salvo sem você saber. Aquele sorriso era realmente um poente! Então eu fiquei olhando a foto por mais um tempo. E passei a revezar entre olhar a foto, tomar um gole do chocolate e observar o horizonte. Mas houve um momento em que eu passei a não voltar mais o rosto para o horizonte porque o horizonte tinha se tornado você.  E eu passei a desconfiar daquela padaria e do que aquele lugar estava fazendo comigo. Você não morava na cidade. A gente tinha trocado apenas dois "ois" durante uma greve de professores de 92 dias e eu não poderia admirar mais a sua foto do que as luzes da cidade! Eu ia deixando de de tomar os goles do chocolate e passava a imaginar a sua boca dizendo o terceiro "oi" para mim mais perto do que foram os dois anteriores. Ver você sentar na cadeira da frente e dizer para mim tudo que não nos dissemos durante tantos dias naquele acampamento em frente à Secretaria de Educação já era coisa demais para mim e eu resolvi, então, desligar de vez aquele celular e ir embora. Rindo de mim mesma, levantei sem olhar para trás e procurei esquecer aquele momento.

O que eu nunca assumi para você nem para mim mesma é que jamais passei em frente àquela padaria sem que eu me lembrasse de você. Você passou a ser, desde aquele fim de tarde de outono, um verso de Vinícius andando por ali. E só depois de muito olhar aquela padaria da janela de um ônibus, eu entendi que onde já tivesse poesia feito você, não haveria espaço para qualquer palavra minha.

Os meus poemas tinham feito silêncio para o seu sorriso.

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