28.2.15

O peso da idade


Eu só tinha treze anos quando cismei com os olhos castanhos de um amigo do irmão de uma amiga minha. Isso mesmo. Enrolado assim como a história toda que eu vou contar e que sequer pode ser chamada de história de fato. Eu acabara de adentrar à adolescência, e ele, ah, ele tinha vinte e quatro anos na época e isso fez tanta diferença que eu vou antecipar o final da crônica: eu acabei nunca tendo nada com ele. Por conta da idade, claro. Eu cismei com seus olhos refletidos pelo sol, e ele cismou com a minha idade refletida na minha cara de lambisgóia lambida. No entanto, eu o compreendia perfeitamente, já que se rolasse algo entre nós, como eu queria que rolasse, eu muito provavelmente ficaria conhecida como a menina boboca adolescente apaixonada e ele como o homem que se aproveitou da inocência de uma menina de treze anos. Então, o caso todo não deu em nada. 

O nome dele era César. 
O primeiro dia em que descobri que seu nome era tão bonito feito ele foi quando o vi andando de um lado para o outro enquanto falava ao celular na quadra do prédio em que eu morava. Ele argumentava com as mãos, por vezes colocando uma delas na cintura. E o assunto? O assunto parecia ser sério o suficiente para deixá-lo com uma expressão séria o suficiente para me tirar do sério, tipo, pra sempre. E eu fiquei ali, a poucos metros de distância, disfarçando que não o devorava com os olhos, que não sabia ao certo se achava a bermuda branca dele linda na sua pele morena ou se achava a cor da sua pele feita para qualquer cor de bermuda. Suas sobrancelhas, pretas e grossas, tornaram-se a segunda maior dúvida da minha vida: eram elas o motivo dos seus olhos castanhos estarem sempre tão protegidos dos meus? 

Nós trocávamos olhares. Sim.  Nós trocávamos olhares. Instantes da vida que valeram por anos inteiros. Às vezes era eu quem desistia e voltava o olhar para outro lado da curva; outras, era ele que olhava para baixo como quem lamenta: Esse raio de menina tinha de ser tão nova! Tinha que ficar me encarando assim! Eu não sei se ele pensava isso, mas eu pensava isso por ele, porque nunca tivemos chances de dizer um para o outro o porquê dos nossos olhos se procurarem nem o porquê de desistirem. Eu tinha medo de forçar a barra e ele fugir para sempre, e desconfio de que ele tinha medo de eu não ter medo de forçar a barra.

Para poder quando possível trocar olhares com ele, eu inventava uma urgência e ia comprar alguma coisa na padaria. Então descia a rua, passando pelo prédio em que ele morava toda vez que o via por perto. Tinha vezes em que a sorte contribuía: eu estava chegando da escola, com pressa, fome e cadernos na mão quando ele passava por mim num beco da viela. Ali estávamos nós, sozinhos, um vindo e o outro indo, como sempre acontecia. O que não sabíamos naqueles segundos, no entanto, é que a vida toda seria assim e que aqueles instantes valeriam por não serem mais que instantes de pulsação. Não sei se o coração dele batia forte dentro do peito quanto o meu, mas sei que os olhos dele diziam coisas que meu peito compreendia perfeitamente e que este texto será incapaz de contar.

Houve um dia, no meio de já tantas trocas de olhares, que ele resolveu chamar uma amiga minha para conversar. Eu senti que a conversa seria sobre mim, que ele poria fim na distância da nossa troca de olhares, e que naquele dia deixaríamos de pensar em como seria o momento em que nos olharíamos bem mais de perto e que ele riria como quem diz "Você, hein, menina..." antes de encostar o seu nariz no meu e deixar que eu mordesse devagar o seu lábio inferior. Mas, quando a minha amiga voltou, eu soube o que já contei no início do post: não haveria chances. A pergunta que ele havia feito se referia a minha idade. Segundo a Bia, quando ela contara que eu tinha treze anos, ele baixara a cabeça como quem raciocina e lamenta. Naquele dia, eu soube então, pela primeira vez, o que significava, de fato, o peso da idade. Eu pesava muitos poucos anos para amar além do olhar. Tive de ficar somente com alguns instantes dos seus olhos: única peça dele que levo na minha bagagem de vida.

Hoje tenho 28 anos e um dragão tatuado no braço, uma reverência às forças da vida, que destrói o que precisa e vivifica o que almeja. Ele deve ter por volta dos 39, 40. E eu tenho, sim, imaginado como seria se um dia nos reencontrássemos. 

Eu lhe contaria que me tornei professora de Literatura para ler poetas dizerem em versos o que só li nos olhos dele.
Ele diria em que ramo está trabalhando, e eu pediria para ir até seu trabalho só para vê-lo atender o telefone. 
Eu comentaria que tive um filho tão sapeca quanto eu com 13 anos. 
Ele diria quantos anos seus filhos tinham, e eu pediria para ver as fotos deles no seu celular só para relembrar a mocidade das suas sobrancelhas, o contraste dos seus olhos castanhos com o sol. 
Ele perguntaria se ainda tenho aquela camisa do Palmeiras que eu não tirava nunca.  E eu diria que não torcia nadinha para o Palestra em relação ao quanto torcia para sentir sua mão na minha nuca.
Eu explicaria o motivo de ter tatuado um dragão japonês no braço, deixando claro que a minha valentia maior não tinha nada a ver com suportar a dor, por horas, de um desenho no braço, mas de suportar a saudade, de anos, do seu olhar.

E antes que qualquer outra oportunidade fosse perdida, eu lhe perguntaria o que ele haveria de ter feito se a resposta da minha amiga tivesse sido 18 anos. E torceria, torceria muito, para ele continuar esperto feito seu olhar, que nunca me respondia com palavras.

4 comentários:

Thais Funke disse...

Pois é, lembro exatamente como acontecia, e me surpreende vc lembrar de cada detalhe conforme confidenciamos por varias vezes!

ana paulino disse...

adorei fer...da p viver jt c vc cada palavra....bj http://anaherminiapaulino.blog.uol.com.br/

ana paulino disse...

adorei fer...da p viver jt c vc cada palavra....bj http://anaherminiapaulino.blog.uol.com.br/

! Marcelo Cândido ! disse...

Belo texto, tudo ficou pelo olhar e a vida é assim: não é como nas histórias que criamos!!!