20.2.14

Sopro

- Perdi a minha mãe aos 14 anos.

E dessa confissão foi surgindo um outro homem à minha frente. A cada gole no copo, seus braços tornavam-se meus. Era eu quem queria carregar aquela dor, era eu quem desejava comunicar uma tragédia com tamanha candura e beleza. Mas era ele. A morte era dele. Era ele quem tinha sua posse e discorria sobre ela como se a infelicidade pudesse ser engolida com o copo de cerveja que, de quando em quando, ele levava à boca e que, ao olhar pra mim, tornava a solver. Naquele instante, ele já não era só uma companhia curiosa e bela a me enaltecer a noite: havia se tornado um homem suntuoso por completo.

Certamente, aquela não era uma boa notícia para se dar. Não num primeiro encontro. Era forte demais para ser tragada, para ser levada com o vento e a vida continuar igual. Não continuou, é claro. E é claro também que aquele relato não partiu de dentro de mim ainda. Está comigo. Acho até que ela, a notícia de sua vida, sempre esteve aqui, esperando alguém soprá-la. E o sopro veio sem se saber sopro. Sem que ele soubesse que estava soprando em mim um encantamento.

[Ah, se ele o soubesse de todo o mais:
do quanto quis tê-lo deitado no meu colo num banco de praça naquele instante!
de que rabisquei um poema na volta pra casa naquela mesma noite!]

Daqueles segundos veio uma quietude: toda graça e beleza do mundo silenciaram para ouvi-lo. E eu? Era eu quem estava lá! Era eu quem estava experimentando um assombro: o fato de ele saber lidar com a morte lhe dava vida.

E pior: me fez querer viver por ela.
Como se da morte nascesse a sua própria vida e todo o brilho com que ela inunda a minha.

Um comentário:

Ana disse...

adorei esse texto...bj